A desinformação em saúde, suas consequências e as formas de combatê-la estiveram em debate durante o primeiro dia do Summit Interfarma 35 Anos, evento de três dias sobre o futuro da saúde e da inovação farmacêutica no Brasil, que aborda temas cruciais como comunicação, acesso à saúde, compliance e regulação. O Summit é aberto ao público em geral e ocorre em Brasília até 23 de outubro.
“O Summit Interfarma 35 Anos marca o início de uma nova etapa: a de ampliar o diálogo, que sempre foi um dos pilares da Interfarma. Acreditamos firmemente que o diálogo construtivo é a base para o aprimoramento contínuo da saúde. Somente com diálogo, ciência e absoluta integridade poderemos ter sistemas de saúde fortes, inovadores, acessíveis e capazes de salvar, todos os dias, milhões de vidas”, afirmou Renato Porto, presidente-executivo da Interfarma, na abertura do evento.
Porto lembrou que, durante a pandemia de Covid-19, houve um aumento significativo na circulação de notícias falsas sobre saúde. Estudo recente do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da FGV, intitulado Desinformação Antivacina na América Latina e no Caribe, mostra que a desinformação em saúde ultrapassa fronteiras e coloca em xeque a confiança na ciência, nos profissionais de saúde e nas vacinas.
“O estudo da FGV, que mapeou 175 supostos danos atribuídos às vacinas e 80 falsos antídotos propagados em comunidades conspiratórias entre 2016 e 2025, mostra que 40% das notícias falsas sobre saúde na América Latina e no Caribe têm origem no Brasil. Esses números são alarmantes e exigem de todos nós uma resposta firme. Combater a desinformação na área da saúde é uma bandeira da Interfarma e de suas associadas”, reforçou o presidente, destacando que a Associação seguirá priorizando o tema em 2026.
Aberta ao público, a discussão contou com palestra da Dra. Gabriela Bailas, PhD em Física, divulgadora científica e colunista da Folha de S.Paulo, com o tema “Ciência ou crença? Como a informação correta transforma realidades”. “Divulgar ciência é um ato de cuidado coletivo. Falar de ciência não é apenas transmitir conhecimento, é dar às pessoas o poder de decidir sobre o próprio corpo com autonomia”, afirmou.
A pesquisadora destacou os impactos das notícias falsas na queda da vacinação infantil e na disseminação de curas milagrosas para doenças como diabetes e câncer, inclusive por profissionais de saúde. Segundo ela, muitas pessoas acreditam em fake news porque confirmam crenças e sentimentos pré-existentes, além de refletirem a falta de conhecimento científico básico e a preferência por explicações emocionais e simplificadas.
“É essencial compartilhar conteúdos de fontes confiáveis e corrigir desinformações com empatia, sem atacar quem as espalha. Como foi dito anteriormente, remédio falso mata e notícia falsa em saúde também mata. É muito triste quando alguém renuncia a um tratamento por acreditar em uma notícia falsa e chega a um ponto sem retorno”, alertou Gabriela.
O primeiro dia do Summit seguiu com a apresentação de dados inéditos do Edelman Trust Barometer 2025: Confiança e Saúde, conduzida por Ana Carbonieri, diretora de Contas da Edelman Brasil. O estudo mostra que 78% dos brasileiros temem a politização da medicina e que um em cada três deixaria de confiar em um médico com opiniões políticas divergentes, número que sobe para 43% entre os jovens. A pesquisa revela ainda um cenário de desconfiança generalizada, no qual empresas são vistas como neutras (54%), enquanto ONGs, mídia e governo apresentam baixos índices de confiança. Além disso, a autoridade tradicional em saúde está sendo substituída por pares, criadores de conteúdo e pacientes, e a empatia e as experiências pessoais tornaram-se centrais na construção da confiança.
Por fim, o Dr. André Bacchi, professor de Farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis, e a jornalista Chloé Pinheiro, editora da Veja Saúde, juntaram-se a Gabriela Bailas e Ana Carbonieri no painel “Desinformação em Saúde: Desafios e Caminhos para Reconstruir a Confiança”, mediado pelo médico Luís Fernando Correia, colunista de saúde da CBN. Os participantes destacaram que educação, comunicação transparente e empática, responsabilidade da mídia, regulação eficaz das plataformas digitais e responsabilização de quem dissemina desinformação são medidas essenciais para enfrentar o problema, um desafio que depende de todos.