- Pacientes na América Latina levam em média 5,7 anos para acessar tratamentos inovadores após a aprovação global.
- Embora 9 em cada10 agências reguladoras da região já utilizem mecanismos como Reliance, que buscam otimização de processos, apenas uma mede seu impacto real na redução dos tempos de acesso.
- Região alcança apenas 59% em competitividade biofarmacêutica, frente a mais de 75% em economias líderes, o que limita investimentos, pesquisa clínica e acesso oportuno à inovação.
O Fifarma Annual Summit 2026 trouxe uma conclusão clara para a América Latina: acelerar o acesso à inovação em saúde já não é apenas uma meta sanitária, mas uma decisão estratégica para o desenvolvimento econômico e social da região.
Durante o encontro realizado em 5 e 6/5, em Brasília, que reuniu líderes do setor público e privado, organismos multilaterais, academia e sociedade civil de toda a América Latina, ficou evidente que a região possui talento científico, capacidade técnica e ferramentas concretas para avançar, mas ainda enfrenta barreiras que atrasam o acesso a tratamentos, limitam investimentos e reduzem o impacto da inovação na vida das pessoas.
Nesse contexto, a integração entre os países foi destacada como elemento central para impulsionar a pauta na região. “Não enxergamos qualquer possibilidade de o tema da saúde estar no centro da agenda de desenvolvimento para os países da América Latina se isso acontecer de forma isolada e não cooperada entre eles. Nós apostamos na integração latino-americana como valor estratégico do desenvolvimento dos nossos países e estabelecimento de um ambiente cada vez mais atrativo e inovador”, afirmou o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante a cerimônia de abertura do evento, realizado com apoio da Interfarma.
Um dos principais consensos foi a necessidade de fortalecer o financiamento em saúde como motor de desenvolvimento. Segundo estudo da Duke University sobre práticas orçamentárias em saúde, a América Latina destina em média 4% do PIB à saúde, abaixo das recomendações internacionais. Isso confirma que avançar não depende apenas de mais recursos, mas de melhores decisões sobre como investir, priorizar e garantir acesso real e resultados sustentáveis.
“Durante muito tempo, a saúde foi tratada como custo. Hoje, a evidência é inequívoca: saúde é investimento estratégico. Não estamos falando apenas de tratar doenças, mas de destravar o potencial humano e econômico da nossa região”, ressaltou Renato Porto, presidente-executivo da Interfarma.
Atraso no acesso a tratamentos inovadores
Essa lacuna se reflete diretamente no acesso a tratamentos inovadores. De acordo com o WAIT Indicator 2026 da Fifarma, os pacientes da região acessam essas terapias em média 5,7 anos após a aprovação global. Reduzir esse tempo representa uma das maiores oportunidades para melhorar resultados em saúde, evitar custos sociais e fortalecer a produtividade da região.
A regulação também foi identificada como uma das principais alavancas para acelerar essa mudança. Mecanismos como o Reliance permitem que os países aproveitem avaliações já realizadas por agências de referência internacional, evitando duplicação de processos e reduzindo prazos.
Hoje, 9 em cada 10 agências utilizam esses mecanismos, mas apenas uma mede seu impacto, demonstrando que o desafio já não é adotar ferramentas, mas garantir resultados.
Para Fernando Sampaio, presidente do Conselho Diretor da Interfarma e da Sanofi Brasil, o progresso da região passa por investimentos contínuos em pesquisa e desenvolvimento, ancorados em previsibilidade, segurança jurídica e um ambiente regulatório moderno. “A saúde deve ser posicionada como premissa para o desenvolvimento e não como subproduto dele. Colocar a saúde no centro da estratégia de desenvolvimento é reconhecer que bem-estar e crescimento econômico são mutuamente dependentes”, afirmou.
Também é fundamental fortalecer a competitividade regional para atrair investimentos, impulsionar a pesquisa clínica e consolidar ecossistemas de inovação sustentáveis. Atualmente, a América Latina alcança 59% em competitividade biofarmacêutica, frente a mais de 75% em economias líderes, segundo o Índice de Competitividade Biofarmacêutica (BCI) da Fifarma.
“A América Latina não precisa esperar mais para que a inovação chegue aos pacientes. Quando alinhamos investimento, regulação e acesso, não apenas fortalecemos os sistemas de saúde, mas também protegemos a competitividade, o desenvolvimento e a capacidade da região de responder aos seus próprios desafios. A inovação em saúde só cumpre seu propósito quando chega a tempo”, afirmou Yaneth Giha, diretora executiva da Fifarma.
Por sua vez, Silvana Lay, diretora de Acesso e Assuntos Públicos da Fifarma, destacou: “O desafio não é apenas desenvolver novas soluções, mas criar condições para que essas soluções cheguem de forma oportuna, equitativa e sustentável. Isso exige decisões mais rápidas, melhor articulação institucional e uma visão de longo prazo sobre o valor da saúde como motor de desenvolvimento.”
O Fifarma Annual Summit 2026 deixou um roteiro claro: investir melhor, regular com mais eficiência e fortalecer a confiança institucional para que a inovação se traduza em bem-estar real para as pessoas.
Quando a inovação chega a tempo, não apenas melhora a saúde dos pacientes, mas também fortalece a produtividade, impulsiona o desenvolvimento e constrói sistemas de saúde mais sustentáveis em toda a região. Esse é o principal desafio e a maior oportunidade para a América Latina.